Ruas e esquinas do interior

tramandaiTodos têm ruas e esquinas no interior da alma. Podem ser ruas reais ou esquinas imaginárias, de espectros do passado de impressões. Se eu fosse descrever o meu mundo em imagens, podia mostrar a textura de umas poucas pedras que podem ser encontradas em meia dúzia de calçadas de uma pequena cidade. As pedras que sustentam o nosso mundo estão na infância, nos lugares em que passamos, nas impressões que nunca se vão e que servem de filtros para o mundo posterior e exterior. A cidade da minha infância é e sempre será imaginária, embora haja lá outra no mesmo lugar e vivam lá pessoas reais que nada sabem deste mundo interior que elas povoam.

Dois mundos. Tramandaí e Osório mantém habitantes tão díspares! Um não tem linguagem para descrever o outro. Embora as nuvens povoem ambas as partes. Embora palavras possam dizer. Palavras parciais. Dizer o que sentem um pelo outro. Ambos não parecem perceber ao mesmo mundo linguístico. São dois mundos quase incomunicáveis e invisíveis um ao outro. Mal dá pra aceitar que façam parte do mesmo país, do mesmo mundo.  Sobre Osório falarei noutra oportunidade. Falaremos de Tramandaí, que considero não uma cidade mas um aspecto da minha infância. Osório é o outro aspecto.

Dois universos. Tramandaí se divide em Avenida Emancipação e a Rua Fernandes Bastos. São dois mundos completamente diferentes. Entra-se na cidade pela Fernandes Bastos, agitada, estreita e conturbada. Ao longo dela se vai vivendo uma Tramandaí que remete ao mundo do trabalho e da praticidade, cotidiano semanal, horário comercial. Posto de gasolina, eletrodomésticos, ferramentas, vendedores ambulantes, escorts, chevetes, um caminhão de mudanças estacionado, outro dando a ré, trancando o trânsito. Uma carroça de pneus de fusca é arrastada pela rua sendo contornada pelos carros. Adiante, há lojas de tintas, fruteiras, muitas fruteiras, papelarias. E o fim. Encerra-se na praça triangular e na ponte. Ocorre o encontro com a Emancipação.

Mas a Emancipação começa efetivamente na Rubem Berta e caminha larga e espaçosamente, folgada e passeadeira. Casas que servem de escritório, imobiliárias, largas calçadas que se espalham em calçamentos basálticos, bancos e canteiros floridos, ruas laterais que anunciam tranquilas residências em avarandadas tardes em que sorve um mate aposentado. Um hotel repousa em férias. Beira Mar. Mas o mar é só no nome. Larga estadia de carros que desfilam, lojas de roupas de portas abertas, tabacarias que na verdade são revistarias, muitos carrinhos de crepes e churros. E mais carrinhos de crepes. E mais outros. No fim, chega-se ao coração da cidade, onde os restaurantes se entreolham parados, como duelantes à espreita por fregueses. As sorveterias se enfrentam no verão. E o inverno lhes açoita. Só no fim, na antiga esquina da Branquinha, o “arranha-céus” atravessa-se e rompe o passado, a imagem da cidade é assombrada e triste. Um café apenas. Senhores e senhoras sentam-se apertados em poucas mesas. Insignificante para muitos. Refúgio de tranquilidade para poucos. Nostálgico café da Branquinha. É filho dela, mas tão diverso que nem lembra as feições da mãe! Termina na praça e vai à ponte.

Um dia, a Emancipação fora diferente, ainda mais florida e palco de procissões, paradas militares e desfiles de escolas. Era quando chamava-se Capitão Mariante, nome em homenagem a um escritor e político osoriense. A Branquinha ficava à esquina, com seus tijolos à vista e telhado. Moldura amarela das janelas. Um dia aos cinco anos lá fui com meu pai. Intervalo do escritório. Me dá um pingado, disse. Não esqueci o gosto do café com leite. Que sinto quando vejo a foto antiga.

A verdade está no inverno. A velha branquinha, que hoje é o prédio do Meridian, fica na esquina da Emancipação com a Rua da Igreja, onde ficava a primeira igreja da cidade. Hoje só um monumento a tenta fazer lembrar. A Rua da Embora comece no coração da cidade, já começa a acalmar-se. Termina no mar. Mas antes de morrer na praia, vai morrendo aos poucos, em condomínios quase vazios, prédios novos quase abandonados. Imensas colônias de férias abandonadas. Isso, claro, porque é inverno. No verão o movimento é intenso. Intenso mas falso.

Talvez por ter vivido a maior parte da vida em cidades de praia, a minha impressão sobre o verão e o inverno remetem à tensão entre os desejos e os sacrifícios. O verão traz a busca e ostentação dos prazeres e do lazer descomprometido, a entrega aos sentidos e belezas sensoriais. O inverno, ao contrário, remete à busca pela sobrevivência, o sacrifício. Por este motivo, a mentira floresce mais fácil e docemente no verão, ao passo que o inverno guarda sua energia única e exclusivamente para as duras verdades da existência humana. É por isso que Tramandaí hoje vive uma mentira. As sorveterias vazias insistem no inverno. Porque é praia. Tem de ter sorveteria. Não há cafés. Porque é praia. Mas é frio e úmido. Nublado e turvo.

Como as ruas do interior de qualquer pessoa que tenha vivido neste mundo sempre a buscar significado. A buscar o texto interior, a vida que vive no centro da alma. Mas que cresce a todo instante, bastando apenas o sopro da imaginação e da lembrança. Da lembrança que nunca volta. Mas nunca esquecida.

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